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Por que ele escolheu me levar para a lua de mel no Camboja?

Me lembro de cada detalhe que encontrei assim que desci do avião naquele dia, quando cheguei em Siem Reap, no Camboja. Assim como a maior parte das noivas, estava tão focada na festa, que deixei os detalhes da viagem nas mãos do meu marido – sim, a essa altura já estávamos casados.

Antes de chegar lá, vivemos maravilhosos 15 dias na Tailândia. Eu já estava tão apaixonada com as paisagens, praias, pessoas e experiências, que projetei o mesmo para o próximo destino. Chegando no outro país, ainda no desembarque, percebi que as coisas seriam diferentes.

Para entrar no Camboja é possível tirar o visto pela internet, pagando uma taxa de US$ 40,00 (30 pelo visto, mais 7 pelo serviço deles e mais 3 de taxa do cartão de crédito). Foi o que fizemos. Mas, por alguma razão, não recebemos o visto pelo e-mail. Depois de explicar isto à imigração, fomos levados para uma mesa distante da fila. Um policial mais velho, de poucas palavras, nos recebeu. Sem falar nada, ele mexia nos papéis dos comprovantes que tínhamos em mãos e verificava nossos passaportes. Depois de muito tempo, ele disse: ” I help you and you help me”. Perplexo, meu marido fingiu não entender. Mesmo assim, o policial repetiu a fala e, com a mãos, fez um sinal de dinheiro. Com a chegada de um vôo, outros turistas foram levados para a mesma mesa, acompanhados de outros policiais. Sem falar e fazer absolutamente nada por nós, ele nos liberou. Em resumo: entramos no país por conta do comprovante que já tínhamos em mãos.

Apesar do susto, foi durante uma conversa com o motorista que nos buscou, que eu conheci meu novo destino. Assim que entrei no carro, ele me disse que já tinha 3G na cidade. Eu achei que não tinha entendido bem o inglês dele e perguntei ao meu marido, que confirmou: a internet tinha chegado há 1 ano no país. O caminho ao hotel também me fez perceber que eu não veria nenhum luxo ou paraísos por alí.

No hotel, fomos recebidos da melhor maneira possível. O gerente, que tinha uns 20 e poucos anos, nos convidou para o café porque o quarto não estava liberado. Apesar da fome, não comi NADA. Já meu marido, se fartou com arroz, feijão e sushi – que eram basicamente os itens mais tranquilos do buffet. Ficamos em um dos melhores hotéis da cidade, o que nos custou apenas 250 reais por noite. Lá dentro, nenhum turista podia acreditar que a realidade do lado de fora era tão diferente.

O café foi corrido, pois o guia do passeio já estava nos esperando. Na pressa, tive que me trocar no banheiro do saguão. Assim que tirei uma regatinha da mala para vestir, pois fazia mais de 30 graus na cidade, fui repreendida pelo guia. Eu não podia mostrar os ombros, nem mesmo uma encharpe seria suficiente. Ele também pediu para que eu vestisse calça. MEU DEUS. Estava muuuuuito quente. Mas, enfim, sai de calça, comprei uma blusa de manga no caminho, e fui me divertir ao lado do meu marido, que por sua vez estava com uma bela bermuda e camiseta.

Nossa programação começava em Angkor,  região do país que serviu como sede do Império Khmer. Os templos são inacreditáveis. Saber que você está pisando, tocando e vendo obras tão enormes e cheias de detalhes, com mais de MIL ANOS, é indescritível. Apesar do calor e de andar muito, estava extremamente grata por viver tudo aquilo.

Mais de 2 milhões de pessoas visitam o Angkor anualmente. Por isto, é super importante contratar um guia. Além dele te levar de carro aos principais pontos, pois o parque é grande, você aprende muito da história. Fizemos dois dias de passeio no parque, o que acho suficiente.

O terceiro dia foi, sem dúvidas, o mais especial. Fizemos um passeio de quadriciclo para conhecer uma vila de pescadores. Depois de um pequeno “teste” pilotando, fomos habilitados. Seguimos ao passeio, cada um em seu quadriciclo, dirigindo pelas estradas. Após entrar no bairro, fomos surpreendidos pelas crianças que saíam para nos cumprimentar. Em uma das paradas, perguntei ao guia se era comum elas fazerem isso. A resposta me deixou no chão. Ele contou que elas conhecem o passeio e, quando escutam o barulho, saem para ver se os turistas levaram doces para elas. Depois de saber disto, eu só encontrei sacos de salgadinhos, em uma venda no meio do caminho. Mas nem se eu tivesse comprado uma bomboniere inteira, não seria suficiente para tirar o que eu estava sentindo.

Quando paramos na vila para conhecer as crianças e entregar o “presente”, fomos novamente surpreendidos. Elas brincavam na rua, ao lado de um funeral. No Camboja, os mortos ficam 3 dias em uma tenda, em frente à casa que moravam, com uma música especifica de fundo. É bem parecido com as festas de casamento, que também duram 3 dias e acontecem na porta de casa.

Apesar do luto, viramos uma atração no local. Quando tiramos os salgadinhos do compartimento, fomos “atacados” pela euforia das crianças. Elas disputavam os saquinhos e não conseguíamos organizar a doação. Lembrei que tinha comprado frutas antes do passeio, e resolvi distribuir. Desta vez, elas formaram uma fila para ganhar o presente.  Saí desta vila querendo levar todas crianças na garupa.

Eu não falei do nosso guia, né? Ele é mesmo um capítulo à parte: trabalha de domingo a domingo, pegando os turistas no hotel, levando aos passeios e os deixando no final. Ele também nos ensina a pilotar. O passeio desta empresa, que é de um francês, é bem caro. Custa US$ 150,00 por pessoa. Apesar disto, o salário mensal do funcionário é de apenas US$100,00, que é justamente o preço do aluguel de um único cômodo. Ele divide o local com um colega para conseguir ajudar a família, que mora afastada. Durante uma das paradas, ele nos contou que seu povo está revoltado, pois com a chegada do Facebook, descobriram que a vida é bem diferente em outros países.  Ele também confessou o sonho de tirar um passaporte, o que é extremamente caro no país. Voltando à empresa ao final do passeio, ele levou uma bronca do patrão por atrasar alguns minutos. Na despedida no hotel, demos uma gorjeta que pagaria o aluguel dele naquele mês. Ele chorou, mas quem sofreu fomos nós.

A noite em Siem Reap é bem agitada. A Pub Street é basicamente a rua de bares que recebe os turistas. O local é forrado de policiais e ambulantes, que vendem insetos e bichos fritos. Um destes vendedores ganhou meu coração. Kim tinha 11 anos e convenceu o Leo ( meu marido) a comer larvas e um escorpião. Ele ficou ao lado da nossa mesa o tempo todo, enquanto bebia um refrigerante e comia com a gente. Kim nos contou que trabalhava para um amigo, que estava a poucos metros da gente. Assim que percebeu a conversa, o “amigo”, que na verdade era seu patrão, chamou o menino. Antes disto, ele fez questão de tirar uma foto com a gente para nos lembrarmos dele. Apesar da rotina dura do trabalho durante a madrugada, Kim até que tem sorte. Ele não é uma das crianças que trabalham no turismo sexual.

Esta é uma foto que consegui tirar de longe, para mostrar o tipo de casal (o tipo de crueldade) que encontramos lá.

No dia de ir embora, fomos chamados pelo gerente do hotel, aquele simpático e novinho. Ele queria avisar que teríamos um desconto de 40% no check-out porque percebeu que eu não tive uma boa experiência no café da manhã. Ele ainda informou que a direção do hotel mudaria o menu para receber os próximos clientes.

Fiz questão de contar sobre a viagem através das minha experiências e impressões para deixar duas coisas claras:

1- O Camboja é realmente um destino diferente do que eu esperava quando deixei a viagem nas mãos do meu marido;

2 – Eu não aprenderia nada sobre a vida durante minha lua de mel, caso ele escolhesse apenas o tradicional.

Esta última é a crueldade: “Repare neste senhor de bengala com a garotinha”

Lua de mel no Camboja:

Por que ele escolheu me levar pra lá?

Por Larissa Cassavia @laricassavia