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Falta de conhecimento leva muitas mulheres a se tornarem reféns de relacionamentos abusivos, diz vítima da misoginia

 

Falta de conhecimento leva muitas mulheres a se tornarem reféns de relacionamentos abusivos, diz vítima da misoginia

Livro-relato facilita acesso a informações sobre um dos principais problemas causadores de abusos em relacionamentos

 

Rebeca Ucelli é o codinome de mais uma das vítimas da misoginia. Com a história envolvida com esse tema pouco explorado, Rebeca viveu oito anos ao lado de um misógino, sem ter a mínima ideia do que essa palavra significava. ‘’Na época do meu namoro, eu não entendia as agressões e os abusos que eu sofria. Para mim, o meu namorado era o homem que eu escolhi para dividir a vida. Mas as atitudes dele, ao longo do tempo, começaram a mudar, e o homem carinhoso e atencioso que fazia parte do inicio do relacionamento, deu lugar a um homem frio e grosseiro. No entanto, eu atribuía a mudança de comportamento a uma personalidade difícil e um gênio forte. Jamais imaginei que o meu ex era manipulador e abusador.’’, comenta.

 

Assim como muitas vítimas, Ucelli só começou a ter consciência de que havia algum problema no final da relação. ‘’Ironicamente, entendi que o homem que eu amava não sentia absolutamente nada por mim, exceto o prazer em ver a minha dor, através do ápice da humilhação, quando num rompante de fúria ele expôs o que realmente sentia por mim. Sendo assim, aprendi que é importante destacar que os abusos nem sempre são escancarados a ponto de serem facilmente interpretados. Até porque, se uma relação doentia fosse tão fácil de entender, nós estaríamos subestimando a inteligência da mulher’’, ressalta.

 

Para Rebeca, outra atitude que o misógino toma com freqüência é exercer a inversão de papéis, responsabilizando a companheira pelos erros que ele comete. ‘’Geralmente eles são tão enfáticos e persuasivos, que levam a mulher a acreditar que realmente é culpada por todas as falhas da relação. Aos poucos ele vai roubando a energia, minando a auto-estima e moldando a mulher para ter uma vida exatamente como ele quer. Eu me transformei em uma mulher sem auto-estima, totalmente sem vaidade, introvertida e submissa. Eu diria que eu não vivia, eu só existia. A minha história é um relato de violência e se baseia na tortura psicológica e no aprisionamento da própria consciência. É uma violência velada’’, desabafa.

 

A vítima demora a entender e interpretar os abusos que suportou. Segundo Rebeca Ucelli, pesquisas foram fundamentais para uma real compreensão. ‘’Chegar até a palavra misoginia me permitiu montar o quebra cabeça, e foi extremamente libertador. Na época eu também compreendi que se eu tivesse essas informações eu jamais teria permanecido tantos anos em sofrimento. Por isso, através da minha história contada no livro, eu quero ajudar e alertar sobre este problema. Eu relato toda a experiência que tive ao lado de um misógino. Conto como é o inicio da relação (que é incrível e romântica), como eles agem, quais são os primeiros sinais, como eles se comportam sexualmente, escrevo sobre estupro, abordo os diferentes tipos de abusos, de manipulações e conto como eu acordei e percebi o que eu vivia, e como consegui sair do relacionamento’’, finaliza.

 

‘’Informação é uma arma importante contra a violência, sendo capaz de amenizar sofrimentos e até salvar vidas.’’

 

Atualmente, as pessoas têm dificuldade em saber o que é a misoginia. Entretanto, apesar de soar como uma palavra nova, misoginia já existe há séculos. É uma palavra grega utilizada como referência a quem odeia mulheres: miso (odiar) e gyne (mulher). A misoginia é um problema que afeta os homens, e desencadeia parte dos relacionamentos abusivos que existem.  Rebeca defende que expor esse problema não é deturpar a imagem do homem. ’’Eles também são vítimas. Eles desenvolvem esse sentimento na infância e é decorrente da educação que eles tiveram em casa, às vezes com o desprezo materno ou por presenciar do pai atitudes machistas e agressões contra a mãe’’, menciona.

 

‘’Já ouvimos, ao longo dos anos, muitos relatos que envolvem esse ódio. Na história é possível ver serial killers famosos que escolheram as vítimas apenas por ser do sexo feminino. Também não é incomum se deparar com notícias de mulheres que foram agredidas na rua por homens desconhecidos, ou casos de mulheres que quase perderam a vida no primeiro encontro. Mas, sem dúvida, o exemplo de misoginia mais comum e recorrente são encontrados nos relacionamentos mais duradouros. São mulheres que namoram, e por vezes casam, com homens que são aparentemente carismáticos e muito queridos, não só pela mulher, mas por todos que o rodeiam.  Mais tarde, com a convivência e já envolvida na relação, elas se deparam com um homem completamente diferente. O carisma é substituído pela arrogância, nascendo, assim, as agressões, as humilhações e até os assassinatos’’, pontua Rebeca.

 

Para a vítima, o amor próprio e a aceitação são vitais. ‘’Possuímos características que nos definem, e é isso que nos torna únicos. É um erro nos cobrarmos por algo que uma pessoa impõe. Não temos que mudar por ninguém, a maneira de ser, o jeito, a personalidade, gostos, opiniões, estilo – a não ser que seja unicamente por nós. Se existe um amor verdadeiro, nós seremos aceitos exatamente da forma como somos’’, destaca.

 

‘’A partir do momento que entendemos isso, fica mais fácil evitar relacionamentos tóxicos. E eu também quero ressaltar uma dica valiosa que eu ouvia desde pequena, quando o meu pai me dava conselhos adultos. E cabe muito no contexto da misoginia: observe como o homem trata as mulheres que estão a sua volta – mãe, irmã, tia, prima, professoras, colegas de trabalho. A forma como ele as trata é a mesma como vai tratar você no futuro. Ironicamente, ignorei as palavras do meu pai e tive que aprender da forma mais dura. No entanto, é um excelente conselho e é muito válido para os dias de hoje’’, finaliza Rebeca Ucelli.

 

Livro da autora Rebeca Ucelli, disponível para compra